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Pesquisando e escrevendo no Rio – entrevista

O que a inspirou a escrever um livro baseado, em parte, no Rio de Janeiro?

Em 2011, uma amiga “espiritual” me disse que logo eu viajaria ao Brasil e eu ri dela! Mas, estranhamente, na manhã seguinte, meu agente me contatou para dizer que uma editora brasileira tinha acabado de adquirir os direitos de tradução dos meus dois primeiros livros, A casa das orquídeas e A garota do penhasco. Eu tive que admitir que era uma coincidência e tanto.

 

Quando mandei um e-mail para o dono da editora para lhe agradecer, ele perguntou se eu gostaria de ir ao Brasil para participar da famosa Bienal do Livro do ano seguinte. Como eu já havia sido avisada de que aquele era o meu destino, tive que dizer “Sim!”.

 

 

Felizmente, meus livros foram muito bem recebidos pelos leitores brasileiros e, quando cheguei a São Paulo para a Bienal, em agosto de 2012, fiquei fascinada pela reação do público. Havia centenas de fãs para me receber. De São Paulo, fui para Curitiba e, de lá, para o Rio. E em todos os lugares os leitores me recebiam e me apoiavam. Quando cheguei ao Rio, já estava profundamente apaixonada pelo Brasil e pelos brasileiros. A beleza e a receptividade tanto das pessoas quanto da paisagem eram algo único. E se encaixaram muito bem no meu “espírito”.

 

E quanto ao Rio... Depois de dias e dias viajando pelo Brasil, quando fui dirigindo do aeroporto e vi o Cristo Redentor iluminado pairando acima de mim, meus olhos se encheram de lágrimas. A ligação emocional que tenho com ele é muito difícil de descrever. Foi um momento marcante, quando compreendi seu encanto.

 

Em meu trabalho, viajo para muitos países, e é raro eu de repente sentir que PRECISO escrever sobre um lugar. Mas na primeira manhã em que acordei no Rio e vi o mar na praia de Ipanema, tive certeza de que era isso que eu queria fazer. Então chamei uma guia, Suzana Perl, e ela me acompanhou por um tour histórico e cultural que durou três dias. No Centro da cidade, fui ao antigo prédio do Senado e vi as gravuras de grãos de café no piso e na decoração sobre a porta. Aprendi que os “barões do café” tiveram grande poder no governo devido à sua riqueza e que a Quebra da Bolsa de 1929 levou o Brasil a uma grave depressão, que beirou a falência. Descobri que os anos 1920, a belle époque, foram também o período de construção do Cristo, e então tive a ideia de usá-lo em minha história. Suzana também me levou a um antigo casarão no Cosme Velho, que estava abandonado e em ruínas, mas ainda assim eu pude visualizar como ele teria sido maravilhoso noventa anos antes.

 

 

Munida de todas essas recordações preciosas, fui embora do Brasil  com a certeza de que carregava as sementes de um novo livro.

 

 

Como foi sua pesquisa histórica e o que você achou mais interessante?

 

Comprei todos os livros que pude encontrar (não há muitas opções em inglês!) sobre o Brasil dos anos 1920 e também sobre a construção do Cristo e a participação de Paul Landowski. Li a biografia dele em francês. Ainda assim, quando voltei ao Rio em 2013 para pesquisar e me instalei num apartamento com vista para a praia de Ipanema, tinha muitas perguntas sem respostas. Na época eu já havia tido a inspiração para a série As Sete Irmãs e estava ciente de que o primeiro livro, a história de Maia, seria muito importante para consolidar as personagens contemporâneas e a premissa geral que embasaria os sete livros. Então eu sabia que precisava trabalhar muito para tecer o presente de Maia em volta do passado que eu queria escrever. Em geral, quando pesquiso sobre algum período, consigo encontrar em livros ou na internet versões em inglês sobre o “detalhe” que busco, mas me parece que a história brasileira não está tão amplamente documentada fora do próprio país. E, particularmente quanto à construção do Cristo, pouquíssima informação confiável está disponível ao público.

 

E então o destino interveio e me apresentou a Bel Noronha, uma das minhas vizinhas em Ipanema. Para minha surpresa, ela é bisneta de Heitor da Silva Costa, o engenheiro e arquiteto por trás da construção do Cristo. Nós nos tornamos grandes amigas e ela foi uma fonte de informações maravilhosa sobre certas partes do primeiro livro da série As Sete Irmãs. Ela me contou a VERDADEIRA história da visão que o bisavô tinha sobre a estátua – uma história que parece ter muitas versões no Brasil. Fiquei espantada ao descobrir que muitas pessoas no Rio ainda acreditam que ela foi um presente dado pela França!

 

Pedi autorização a Bel para reavivar a história de Heitor da Silva Costa e de sua família e de acrescentar um pouco de ficção – baseada em trechos do diário do avô, que ela gentilmente me permitiu ler – ao projeto e à conclusão da estátua, feitos entre 1925 e 1931. Para minha gratidão, ela confiou em mim e me deu permissão para executar a ideia. As descrições feitas por ela melhoraram muito o livro que eu planejava.

 

 

Como você desenvolveu a trama e as personagens?

 

Depois de pesquisar tudo o que podia, comecei a escrever na minha cobertura em Ipanema, tendo o Cristo às minhas costas e a incrível praia à minha frente. Então tive a sorte de ser convidada para passar alguns dias na serra, na bela fazenda de amigos, datada de 1820 e que também usei no meu livro. Lá eu tive paz total (nada das tentações que me distraíam no Rio!), cercada por um cenário magnífico. Fiquei cheia de ideias e a história começou de fato a ganhar corpo. No “presente”, Maia D’Apliése recebe do pai recém-falecido (um bilionário enigmático chamado de Pa Salt pelas seis filhas adotivas) pistas sobre sua origem e viaja para o Brasil em busca da família que não conheceu. No “passado”, Izabela Bonifácio, a bela filha de um imigrante italiano de São Paulo, se muda com a família para o Rio para satisfazer o desejo de ascensão social do pai e vê sua vida mudar radicalmente.

 

É importante dizer que As sete irmãs NÃO é um livro de história, mas uma história de amor que leva o leitor numa jornada cheia de emoções junto com duas mulheres de gerações diferentes. Os detalhes históricos verídicos são usados apenas à medida que convêm ao meu enredo. Se meus leitores mundo afora aprenderem algo com a narrativa, ótimo, mas meu objetivo principal é que eles se deliciem com a trama.

 

Além de tudo o que ama no Rio, você também descobriu algum aspecto negativo?

 

Fiquei abismada ao descobrir que a escravidão só foi abolida no Brasil em 1888 e, é claro, a grande Depressão dos anos 1930 gerou uma pobreza terrível para o país. Também fui a uma favela e testemunhei a escassez com que as pessoas vivem e, por outro lado, sua tremenda energia. Havia uma favela logo por trás do meu prédio em Ipanema e, morando lá, compreendi que ela é apenas um bairro, onde as pessoas moram, trabalham e tocam as próprias vidas. Eu adorava ver as pipas de dia e ouvir as batucadas de tambor à noite. Uma das coisas mais marcantes para mim no Rio é a distância entre pobres e ricos, não só uma diferença financeira, mas também uma separação física, já que a população pobre mora numa área delimitada, a favela. Em muitos dos outros países que visitei, numa mesma rua moram pobres e ricos. Quanto ao crime e à violência, tenho certeza de que há no Rio, mas escolhi não escrever sobre isso. Meus livros são para entreter e tendem a focar os aspectos positivos da natureza humana, não os negativos. Porque acredito na bondade dos seres humanos e que a maioria deles, se não todos, pode encontrar a salvação se quiser.

 

Também preciso dizer que, sendo mulher e morando sozinha por um mês no Rio, saía à noite para fazer compras ou comer e nem sequer uma vez me senti desconfortável ou ameaçada. A imagem do Rio passada pela mídia internacional tende a ser equivocada. Sei que morei numa área considerada “boa”, mas moro numa “boa” área de Londres, onde roubaram minha bolsa. Acho que toda cidade grande tem os mesmos problemas.

 

Como você fugiu dos clichês que sempre são associados ao Brasil, como mulheres bonitas sambando no Carnaval e jogadores de futebol incrivelmente habilidosos?

 

Sempre tento fugir de clichês, por exemplo, a “cara” do país que é apresentada ao mundo, e escrevo sobre as pessoas reais que vivem nele. Morando por um mês num apartamento em Ipanema, fiz parte do cotidiano do Rio, fiz compras na feira e no supermercado, comi em restaurantes locais (não os para turistas), experimentei comida brasileira de verdade – que amei – e tentei melhor meu português, que é muito ruim. Em nenhum momento vi brasileiros sambando na rua – mas teria gostado se visse! E não tenho o menor interesse em futebol! Mas quis, sim, incluir duas outras coisas pelas quais o Brasil é famoso: as paisagens belíssimas e a cordialidade do povo. Foi conversando com gente comum que formei a imagem que tenho do carioca. E viver na cidade me ajudou a captar sua atmosfera, bem como sua história. Sei que não teria escrito o livro com a mesma qualidade sem ter feito isso. Só espero ter feito justiça ao Brasil, ao seu povo e à sua cultura.

       

O que você levou consigo do Rio?

Foi a noção definitiva de que o Rio é A cidade mais bonita do mundo, na minha opinião. Quem mora nessa cidade tem muita sorte. Lá tem tudo de bom: clima, praias incríveis, montanhas (assistir ao sol se pôr atrás delas a cada noite foi emocionante). Além dos próprios cariocas, que foram muito gentis, acolhedores e prestativos ao responder a minhas muitas perguntas. Fui honrada por ser uma carioca “adotiva” por um mês. Ah, e também levei uma mala cheia de Havaianas pra minha família e pros meus amigos!